Governo do Iêmen lança ofensiva contra houthis e avança para Sanaa
A operação envolve a coalizão saudita, que mobilizou 100 aviões; Bab el-Mandeb segue aberto, mas a disputa na costa aumenta o risco à navegação.
Resumo em 30 segundos
O governo iemenita reconhecido internacionalmente lançou a operação Amanhecer do Iêmen contra os houthis, com apoio aéreo da coalizão liderada pela Arábia Saudita. A ofensiva inclui ações perto do estreito de Bab el-Mandeb e um avanço anunciado em direção a Sanaa. A passagem marítima não foi fechada, mas a disputa costeira eleva os riscos para a navegação.
O governo do Iêmen reconhecido internacionalmente lançou nesta segunda-feira uma ofensiva contra os houthis, movimento armado apoiado pelo Irã, para retomar áreas conquistadas pelos rebeldes. A operação, chamada “Amanhecer do Iêmen”, inclui ataques na costa do Mar Vermelho e na região do estreito de Bab el-Mandeb, além de um avanço anunciado em direção a Sanaa, capital controlada pelos houthis.
A coalizão liderada pela Arábia Saudita participa da ação com apoio aéreo. Seu porta-voz, o major-general Turki al-Malki, afirmou que cem aviões de combate estavam mobilizados nesta segunda-feira e que 324 alvos considerados de alto valor haviam sido destruídos desde o início da operação. Ele também disse que a coalizão mantém proteção aérea sobre Bab el-Mandeb e atua contra alvos móveis.
O estreito de Bab el-Mandeb — nome que pode ser traduzido como “Portão das Lágrimas” — é uma passagem marítima entre o Iêmen, no sul da Península Arábica, e Djibuti e Eritreia, no Chifre da África. Ele conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao oceano Índico. A posição faz do estreito uma rota importante para navios que viajam entre a Ásia e a Europa pelo canal de Suez; estima-se que por ali passe cerca de 12% do comércio global.
A coalizão afirmou que protege a passagem, mas não há indicação de que Bab el-Mandeb esteja fechado. A disputa pelo controle da costa iemenita, no entanto, amplia o risco para a navegação. Em setembro, os houthis avançaram pelo litoral oeste e tomaram a cidade de Moca e várias ilhas, assumindo o controle do lado iemenita do estreito.
Na região costeira, forças alinhadas ao governo atacaram posições houthis em Dhubab, perto da passagem. As Brigadas dos Gigantes, grupo aliado ao governo, anunciaram uma operação contra os rebeldes. O porta-voz das forças governamentais, Majed al-Nazili, afirmou que as tropas tomaram o aeroporto de Dhubab e interromperam a estrada para Moca. Uma fonte militar houthi negou essa informação.
A ofensiva ocorre após novos avanços rebeldes no sudoeste do país. No domingo, os houthis tomaram Turbah, cidade situada numa estrada que liga Taiz, terceira maior cidade do Iêmen, a Áden, sede provisória do governo reconhecido internacionalmente. A captura pode dificultar o envio de reforços e suprimentos às forças governamentais na província de Taiz, segundo avaliação do Institute for the Study of War, centro de estudos sediado em Washington.
O chefe do Conselho de Liderança Presidencial do Iêmen, Rashad al-Alimi, disse que a campanha busca restaurar as instituições do Estado e recuperar os territórios sob controle houthi, incluindo Sanaa. O governo anunciou a mobilização no domingo. Al-Malki prometeu apoio operacional às forças iemenitas e defendeu que a Arábia Saudita possa tomar medidas diante dos ataques de mísseis e drones dos rebeldes.
Os Estados Unidos também apoiam a operação saudita, segundo fontes a par do assunto. O auxílio inclui compartilhamento de inteligência, identificação de alvos e planejamento. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse que esperava uma reação do governo iemenita para retomar territórios e afirmou que os dois países têm um acordo de defesa, sem detalhar sua aplicação. “Eles têm o direito de se defender”, declarou.
A escalada atual começou em meados de julho, quando os houthis acusaram a Arábia Saudita de atacar o aeroporto de Sanaa. Os rebeldes responderam com mísseis e drones contra o reino e forças governamentais, além de anunciarem um bloqueio à navegação saudita no Mar Vermelho. O conflito reacendeu após um cessar-fogo de quatro anos; a guerra civil começou em 2014, quando os houthis tomaram Sanaa e forçaram o governo a se exilar na Arábia Saudita.
A disputa também atingiu a infraestrutura de petróleo saudita. Os houthis reivindicaram ataques a instalações da estatal Saudi Aramco, incluindo uma estação de bombeamento em Jurais, a leste de Riad. O oleoduto Leste-Oeste, com cerca de 1,2 mil quilômetros, leva petróleo dos campos do leste do país ao terminal de Yanbu, no Mar Vermelho, contornando o estreito de Ormuz. Uma fonte do setor de energia saudita disse que o transporte pelo oleoduto foi interrompido após o ataque de domingo.
A Organização Mundial da Saúde atribui à onda mais recente de violência ao menos 959 mortes e mais de 4,2 mil feridos. Cerca de 174 mil pessoas deixaram suas casas dentro do Iêmen, segundo a agência de migração da ONU, e mais de 3 mil fugiram por mar para Djibuti.
Para entender
- Bab el-Mandeb
- Estreito entre o Iêmen e o Chifre da África que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. É uma passagem estratégica para rotas marítimas entre a Ásia e a Europa, especialmente para navios que seguem pelo canal de Suez.