Entregadores de São Paulo divergem sobre Lula, Flávio e segurança
Em conversas na avenida Rebouças, trabalhadores relataram escolhas eleitorais, preocupações com renda e opiniões sobre programas sociais, apostas e jornada 6x1.
Resumo em 30 segundos
Entregadores que conversaram em um ponto de espera na avenida Rebouças, em São Paulo, relataram visões distintas sobre Lula, Flávio Bolsonaro e a eleição. As falas também abordaram segurança pública, dívida, programas sociais, apostas esportivas e jornada 6x1. Alguns disseram não ter votado por multas eleitorais ou por não transferirem o título para a capital.
Na manhã deste domingo, em um ponto de espera de entregadores de aplicativo na avenida Rebouças, na Zona Oeste de São Paulo, Caio Perfeito e Guilherme Araújo, ambos de 22 anos, conversaram sobre a eleição e o segundo turno. Amigos desde o colégio, os dois disseram ter votado em candidatos diferentes: Caio escolheu Flávio Bolsonaro (PL), enquanto Araújo votou em Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sem afirmar convicção em nenhuma das opções.
Os dois afirmaram que prefeririam um candidato de terceira via, mas não enxergaram possibilidade eleitoral nos nomes disponíveis. Caio, que gostaria de votar em Romeu Zema (Novo), disse ter escolhido Flávio para não desperdiçar o voto. Ele avalia que a dívida pública crescente é um problema e considera provável a vitória de Lula no segundo turno, por acreditar que ele tem apoio entre eleitores de baixa renda.
Formado em gestão financeira, Caio trabalhava até o mês passado como assistente de controladoria em uma rede de restaurantes. Ele disse que sua situação pessoal é boa e que acompanha política principalmente pelas redes sociais, pela família e nas conversas do cotidiano. Embora seus pais sejam eleitores de Bolsonaro, Caio afirmou não gostar das discussões políticas em casa e disse não se lembrar de medidas específicas do governo do ex-presidente que tenham melhorado o país. Também não vê avanços no governo Lula e citou o aumento da dívida como crítica.
Araújo, formado em desenvolvimento de sistemas, tem emprego com carteira assinada e complementa a renda fazendo entregas. Ele votou em Jair Bolsonaro em 2018, mas escolheu Lula neste domingo. Citou o Programa Universidade para Todos (Prouni) como uma realização dos governos petistas e mencionou a Operação Lava Jato e o Mensalão entre os episódios negativos. Sobre o governo Bolsonaro, disse que a pandemia prejudicou a gestão, mas não apontou realizações que recordasse.
“Ele não ajudou o povo, Lula é o menos pior”, afirmou Araújo ao explicar sua escolha. Ele disse que votaria em Augusto Cury (Avante) se o candidato tivesse chances de vencer. Também avaliou que parte dos entregadores rejeita Flávio por receio de que uma política federal de segurança mais rígida amplie a violência policial contra a categoria. “Lula vai ganhar, Flávio é candidato dos empresários”, disse.
As conversas no ponto de entregadores também revelaram diferenças sobre segurança pública, renda e programas sociais. Eduardo Almeida, de 23 anos, que trabalha com entregas e faz trabalhos de design, disse que gostaria de ter votado em Flávio, a quem considera distante do perfil político do pai. Ele defendeu medidas como castração química para estupradores, redução da maioridade penal e pena de morte para homicidas e autores de latrocínio, embora não tenha votado neste domingo.
Almeida afirmou que não conseguiu votar porque acumulou multas eleitorais e pretende regularizar o título para as próximas eleições. Ele contou que cumpriu medida na Fundação Casa quando era adolescente e disse que se sentia mais seguro quando a Rota estava nas ruas. Também criticou a qualidade do ensino médio e afirmou ter se arrependido de votar em Lula em 2022. Segundo ele, uma discussão com a mãe ocorreu antes de sair de casa: ela, que votou em Bolsonaro em 2018, agora pretende escolher Lula.
O entregador disse usar o site da BBC para se informar e criticou Lula por uma resposta dada em sabatina no Jornal Nacional sobre a relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB). Almeida afirmou que não se conformou com a reação do presidente à pergunta. Também se queixou dos impostos e disse acreditar que a dívida corresponde a 100% do PIB; o dado citado no relato sobre sua fala é de 82,9%.
Rafael Pereira, de 28 anos, também não votou, por falta de tempo. Ele trabalha exclusivamente em aplicativos e disse que, se tivesse votado, escolheria Lula novamente, apesar da frustração com a economia. Pereira afirmou preferir partidos pequenos, mas não se lembrava em quem votou em 2022. Entre os temas que mencionou estão o fim da escala de trabalho 6x1, que considera positivo mesmo sem ser empregado com carteira assinada, e a proibição das apostas esportivas, cuja liberação atribuiu a uma articulação entre políticos e casas de apostas.
Gabriel Menezes, também de 28 anos, trabalha com carteira assinada em um açougue e tem uma filha de dois anos e meio. Ele disse que não concluiu o ensino médio porque precisava ajudar os pais, que, segundo contou, são analfabetos. A mãe trabalha como diarista e o pai como auxiliar de pedreiro. Menezes votou em Lula em 2022 e repetiria a escolha se tivesse transferido o título eleitoral de Santos para a capital paulista.
Menezes afirmou acompanhar o noticiário pela Rede Globo e pelo G1. Disse que reconhece erros no governo Bolsonaro, sobretudo na condução da pandemia e na compra de vacinas, e teme que um eventual governo de Flávio altere programas sociais dos quais sua mãe depende. Também criticou a escala 6x1: trabalha com apenas um dia de folga e disse ter dificuldade para descansar. Sobre apostas, afirmou que joga ocasionalmente, mas costuma perder: “A gente não sabe parar, é movido pela ganância”.