El Niño acelera erosão e ameaça praias do sul da Califórnia
Ondas fortes já danificaram casas, estacionamentos e estruturas costeiras; autoridades se preparam para novos impactos durante os próximos meses.
Resumo em 30 segundos
Ondas intensas e erosão já causaram danos em praias do sul da Califórnia, incluindo casas inabitáveis, áreas evacuadas e estruturas afetadas. Com a previsão de um El Niño potencialmente forte e chuvoso, autoridades avaliam riscos de novas tempestades, inundações e deslizamentos. Especialistas defendem medidas de longo prazo, como afastar construções da costa.
O El Niño e as ondas fortes já estão acelerando a erosão de praias no sul da Califórnia, onde casas, estacionamentos e estruturas costeiras foram danificados nos últimos meses. Com a previsão de um período ainda mais chuvoso e intenso, autoridades e moradores se preparam para novos impactos no litoral do estado, nos Estados Unidos.
Em Long Beach, moradores tiveram de deixar suas casas quando o mar avançou até as residências. Em Malibu, uma grande cratera levou à evacuação de uma área. No condado de Orange, ondas danificaram parte de um estacionamento e interromperam o tráfego em uma linha ferroviária; algumas casas foram levadas ao mar.
Na semana passada, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, declarou estado de emergência em todo o estado por causa do El Niño, para preparar a região para os próximos meses. Autoridades estaduais alertaram que as condições no litoral podem se tornar extremamente perigosas. Especialistas estimam que o fenômeno possa ser o mais forte e chuvoso já registrado, embora a dimensão dos efeitos dependa da evolução do clima.
O El Niño é um aquecimento periódico das águas superficiais do Pacífico equatorial que altera padrões de circulação atmosférica e pode modificar chuvas e tempestades em diferentes regiões. Na Califórnia, a preocupação é que episódios de ondas grandes e chuvas intensas agravem uma costa já vulnerável à erosão, além de aumentar riscos de inundação e deslizamentos.
Em Dana Point, no condado de Orange, a casa de Chris Rogers, de 51 anos, ficou inabitável. A areia invadiu a sala, e as janelas, antes voltadas para o Pacífico, estão inclinadas sobre a faixa costeira. Rogers vive em uma rua estreita entre uma ferrovia e o trecho de praia que praticamente desapareceu. “Estamos na fase do humor sombrio do luto”, disse.
O cenário preocupa comunidades que tentam proteger imóveis e espaços públicos com barreiras de pedras, reforço da faixa de areia e outras obras. Essas intervenções podem reduzir o risco imediato para construções, mas também limitar o movimento natural da areia e acelerar a perda de praias. Por isso, a Comissão Costeira da Califórnia e outros órgãos reguladores restringem obras consideradas drásticas ou de efeito temporário.
A proposta de longo prazo defendida por especialistas é abrir espaço para que a costa se adapte, em vez de tentar fixá-la. Isso pode exigir deslocar estacionamentos e estradas para longe do mar e substituir calçadas por trilhas entre dunas e vegetação nativa. O recuo de estruturas construídas perto da água é, porém, uma decisão difícil para moradores, proprietários e governos locais.
A erosão não é o único risco associado às tempestades. Dave Kiff, administrador municipal de Laguna Beach, afirmou que a cidade também se prepara para inundações, deslizamentos de terra e incêndios florestais. “Nós nos preocupamos com tudo isso”, disse. O El Niño pode intensificar chuvas e, em determinadas condições, contribuir para riscos que vão além das ondas na praia.
Gary Griggs, professor da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, afirmou que a ocupação do litoral cresceu durante um período de praias relativamente largas e estáveis, entre as décadas de 1940 e 1970. Desde então, a elevação do nível do mar e eventos extremos ajudaram a reduzir a faixa de areia. Segundo ele, o problema imediato são as tempestades e ondas intensas, enquanto a elevação do mar representa uma ameaça crescente no longo prazo.
Há divergência sobre quanto da vulnerabilidade atual decorre de intervenções humanas e quanto está ligado às mudanças climáticas e ao avanço do mar. Katrina Foley, supervisora do condado de Orange, defende a reposição de areia e diz que dragagens e obras costeiras também contribuíram para o problema. Ela afirmou que um acordo ligado à dragagem do porto de Dana Point, iniciada na década de 1960, previa que a areia fosse devolvida às praias próximas, mas isso não ocorreu. “As praias não teriam chegado a este ponto se não fosse pela intervenção humana”, disse.
A Comissão Costeira afirma que a resposta não deve se limitar a reparos feitos após cada tempestade. Kelsey Ducklow, coordenadora de resiliência costeira do órgão, disse que os eventos recentes mostram a necessidade de decisões voltadas à proteção de longo prazo. A reposição de areia pode ajudar a recuperar trechos específicos, mas não elimina a erosão nem impede que tempestades futuras voltem a alterar a costa.
Para entender
- El Niño
- Fenômeno climático periódico marcado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial. Ele pode alterar a circulação atmosférica e influenciar os padrões de chuva e tempestades em diferentes partes do mundo.
- Comissão Costeira da Califórnia
- Órgão estadual que regula o uso e o desenvolvimento da zona costeira da Califórnia. Suas decisões consideram a proteção dos recursos naturais e o acesso público ao litoral, além dos efeitos de obras e construções próximas ao mar.