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Sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Belline Santana relata à PF reuniões com Vorcaro em residências

Belline Santana afirmou à Polícia Federal que encontrou Daniel Vorcaro em residências do empresário em São Paulo e Brasília para tratar de temas do Banco Master.

Por Ricardo Vasconcelos 4 min de leitura
Residência moderna em Brasília com sala de reunião iluminada e silhuetas indistintas ao redor de uma mesa. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Residência moderna em Brasília com sala de reunião iluminada e silhuetas indistintas ao redor de uma mesa.
Resumo em 30 segundos

Belline Santana disse à Polícia Federal que se reuniu com Daniel Vorcaro em casas do empresário em São Paulo e Brasília para tratar de assuntos do Banco Master. Vorcaro confirmou encontros, e a defesa de Paulo Sérgio Neves de Souza afirmou que a residência brasiliense também funcionava como escritório. As agendas públicas do Banco Central não registram visitas aos imóveis.

O servidor afastado do Banco Central Belline Santana afirmou à Polícia Federal que se reuniu com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ao menos três vezes na casa dele em São Paulo e outras duas em Brasília. Segundo o depoimento, os encontros trataram de assuntos ligados à supervisão e ao modelo de negócios do banco; as datas não foram especificadas, exceto por uma reunião em Brasília que teria ocorrido em 2024.

Santana prestou depoimento em 25 de agosto. Ele disse que, em algumas ocasiões, foi sozinho e, em outras, esteve acompanhado de Paulo Sérgio Neves de Souza, também afastado do Banco Central. Souza foi diretor de Fiscalização do órgão e, em 2023, passou a ocupar o cargo de chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária.

De acordo com documento da Polícia Federal, Santana afirmou que as reuniões tinham caráter institucional e serviam para “discutir estratégias diante do modelo de negócio de Daniel Vorcaro, que sofreria fortes impactos do ambiente econômico e regulatório então em curso”. Ele declarou que comunicou os encontros à diretoria do Banco Central, embora integrantes da instituição tenham dito desconhecer os compromissos.

O servidor confirmou ter ido à residência de Vorcaro em São Paulo, mas disse não saber exatamente quantas vezes. Segundo ele, a finalidade era aprofundar o contato para discutir assuntos relacionados ao trabalho de supervisão. Santana negou que frequentasse a casa do empresário e afirmou que, em Brasília, o imóvel também abrigava o escritório de representação comercial do Banco Master, com salas para reuniões.

A agenda pública de Santana não registra visitas à residência de Vorcaro. Os compromissos oficiais listados incluem reuniões em prédios do Banco Central, na sede do Banco Master em São Paulo e por videoconferência. Há ainda um encontro em São Paulo, em 15 de agosto de 2023, mas sem indicação do local.

Em depoimento à Polícia Federal em 28 de agosto, Vorcaro confirmou ter se encontrado “poucas vezes” com Santana e Souza em suas residências em São Paulo e Brasília. Ele afirmou que a casa da capital federal também funcionava como escritório e que os encontros incluíram reuniões profissionais sobre o Banco Master, apontamentos da supervisão e medidas relacionadas à situação de liquidez da instituição.

Souza, por meio da defesa, também disse que o escritório do banco em Brasília funcionava na casa de Vorcaro e tinha recepção, secretária e sala de reuniões. Segundo a defesa, ocorreram três ou quatro reuniões no local, sem especificação das datas. Souza afirmou que os encontros tratavam de temas solicitados pela diretoria no processo de solução do banco e que, em uma ocasião, havia banners de um evento do Ministério Público Federal realizado no dia anterior.

A agenda oficial do Banco Central não indica compromissos nas residências. Pessoas familiarizadas com as regras de conduta de servidores disseram que não é comum integrantes do órgão visitarem casas de representantes de instituições reguladas para reuniões institucionais. Também afirmaram que encontros realizados fora das instalações do Banco Central deveriam constar nas agendas públicas. O Banco Central não quis se manifestar.

Santana é servidor de carreira do Banco Central desde 1998 e comandou a área de Supervisão Bancária de 2019 até janeiro deste ano, em cargo de confiança. O período incluiu as gestões de Roberto Campos Neto, presidente do órgão de 2019 a 2024, e de Gabriel Galípolo, atual presidente.

O depoimento ocorre no contexto de uma investigação interna do Banco Central sobre pagamentos relacionados a um projeto social de Santana. Segundo a apuração interna, ele teria recebido R$ 3,8 milhões por meio da Varajo Consultoria para uma iniciativa destinada a aproximar jovens de comunidades periféricas do mercado financeiro. Um relatório do órgão concluiu que os contratos teriam sido simulados para ocultar propina do Banco Master ou de pessoas ligadas ao grupo.

Santana negou favorecimento ao banco. Ele afirmou que os pagamentos não correspondiam à entrega de um produto específico, mas a um projeto de longo prazo, e que não recebeu todos os valores previstos no segundo contrato. Também disse que o relatório do Banco Central desqualificou o projeto e sua trajetória. A defesa de Leonardo Palhares, apontado pela Polícia Federal como operador de Vorcaro e responsável por pagamentos a Santana, declarou anteriormente que ele e a Varajo colaboram com a Justiça.

Santana afirmou à Polícia Federal que os termos dos contratos foram negociados diretamente com Palhares e que só soube da sociedade entre ele e Vorcaro durante a sindicância patrimonial do Banco Central. Disse ainda saber que Vorcaro indicou seu nome a Palhares, mas que outras pessoas também teriam sido indicadas, e afirmou ter consultado informalmente integrantes da Comissão de Ética do órgão sem mencionar o valor do trabalho nem o nome do empresário.

Quem é quem

Banco Central do Brasil
Autarquia federal responsável pela execução da política monetária e pela supervisão do sistema financeiro nacional. O órgão regula e fiscaliza instituições financeiras e mantém agendas públicas de compromissos de seus dirigentes e servidores, conforme as regras aplicáveis.
Banco Master
Instituição financeira privada associada a Daniel Vorcaro. O banco aparece no caso em razão das reuniões relatadas por servidores do Banco Central e de temas de supervisão, regulação e liquidez mencionados nos depoimentos à Polícia Federal.
Polícia Federal
Órgão de segurança pública federal do Brasil que exerce funções de polícia judiciária da União e conduz investigações de competência federal. No caso, colheu depoimentos de Belline Santana, Paulo Sérgio Neves de Souza e Daniel Vorcaro.

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