Vaticano propõe ampliar participação de leigos no governo da Igreja
Relatório divulgado pelo Vaticano recomenda rever cânones para ampliar a atuação de leigos em funções e órgãos de governo da Igreja Católica.
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Uma comissão do Sínodo recomendou alterações no Código de Direito Canônico para ampliar a participação de leigos em órgãos e funções de governo da Igreja Católica. O relatório, sem caráter vinculante, será examinado pelo papa Leão XIV. Entre as propostas estão ampliar a atuação nos conselhos e introduzir prestação de contas no governo episcopal.
A Secretaria-Geral do Sínodo publicou na quarta-feira um relatório que recomenda mudanças no Código de Direito Canônico para ampliar a participação de leigos e leigas em funções e instâncias de governo da Igreja Católica. O documento não é vinculante e será examinado pelo papa Leão XIV.
O texto foi elaborado por uma comissão de especialistas em direito canônico como parte dos dez grupos de estudo criados pelo papa Francisco em 2024, no contexto do Sínodo sobre a Sinodalidade. O grupo foi coordenado pelo arcebispo Filippo Iannone, prefeito do Dicastério para os Bispos e presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina.
A comissão afirma que não é necessária uma “reforma profunda do sistema jurídico canônico” para concretizar as propostas do processo sinodal. Segundo o relatório, as regras atuais já permitem reconhecer e designar leigos para funções de corresponsabilidade com os pastores, mas essas possibilidades são “frequentemente negligenciadas” e podem precisar de normas mais claras.
As recomendações abrangem cânones que tratam da dignidade dos batizados e de sua participação na Igreja, da atuação de leigos em ofícios e ministérios e da colaboração entre clero e fiéis. Também incluem dispositivos sobre funções administrativas e de governo nas dioceses, tribunais eclesiásticos e a participação de leigos na celebração de matrimônios em condições específicas.
Uma das mudanças em destaque envolve os conselhos particulares, os sínodos diocesanos e os conselhos pastorais. A comissão propõe ampliar a participação de diferentes integrantes do Povo de Deus nesses órgãos e retirar a palavra latina “tantum”, que significa “somente”, de regras que limitam a atuação de leigos ao voto consultivo.
A restrição aparece, entre outros, nos cânones relativos a conselhos particulares, sínodos diocesanos e conselhos pastorais diocesanos e paroquiais. Se as sugestões forem aprovadas, esses espaços poderão deixar de se limitar a uma função consultiva e assumir formas mais amplas de participação nas decisões. O relatório, porém, não detalha como seriam definidos os poderes de cada órgão.
O documento também propõe mudanças para fortalecer as conferências episcopais e descentralizar decisões. Uma delas prevê a realização de conselhos particulares a cada dez anos. Outra retiraria a necessidade de intervenção da Santa Sé quando uma conferência episcopal autorizar leigos a assistir matrimônios nas circunstâncias previstas pelo direito canônico.
Entre as demais recomendações estão esclarecer a função dos bispos auxiliares no governo pastoral das dioceses e permitir que bispos aposentados integrem comissões de conferências episcopais. A comissão também sugere acrescentar ao cânon 391 o princípio de prestação de contas e avaliação no exercício do governo dos bispos, com o objetivo de fortalecer a transparência na administração diocesana.
O relatório ressalta que a participação sinodal não reduz a autoridade decisória do bispo, do conjunto dos bispos ou do papa. A proposta, segundo o texto, é incorporar a contribuição dos fiéis ao processo de decisão e dar caráter comunitário às deliberações.
As sugestões ainda dependem da análise do papa e não alteram, por si só, as normas em vigor. O relatório também não estabelece um prazo para uma eventual decisão ou para a adoção das mudanças. Os grupos de estudo do sínodo são dissolvidos depois de concluírem e publicarem seus trabalhos.
Quem é quem
- Vaticano
- Sede central da Igreja Católica e residência do papa, o Vaticano abriga órgãos da Cúria Romana e instituições responsáveis por aspectos administrativos e doutrinários da Igreja. Suas decisões e documentos têm alcance para comunidades católicas em diferentes países.
- Sínodo sobre a Sinodalidade
- Processo de consulta e reflexão da Igreja Católica sobre participação, comunhão e missão. A iniciativa reúne contribuições de diferentes segmentos da Igreja e pode gerar recomendações e documentos para análise da autoridade eclesiástica.
- Código de Direito Canônico
- Conjunto de normas que organiza a vida e o funcionamento da Igreja Católica de rito latino. Seus cânones tratam de temas como funções eclesiásticas, estruturas de governo, sacramentos e direitos e deveres dos fiéis.