Rússia nega casos de peste em região da Sibéria após morte
A OMS pediu dados sobre a pneumonia que matou uma funcionária de laboratório em Irkutsk e sobre relatos de que outra trabalhadora também adoeceu.
Resumo em 30 segundos
A Rússia informou à OMS que não há casos de peste em Irkutsk, após a morte de uma funcionária de um instituto de pesquisa por pneumonia de causa desconhecida. A organização solicitou informações para esclarecer a doença e verificar relatos de outro caso. O episódio reaviva questionamentos sobre a transparência russa em emergências de saúde.
A Rússia informou à Organização Mundial da Saúde (OMS) que não há casos de peste na região de Irkutsk, na Sibéria, após a morte de uma funcionária de um laboratório de pesquisa na semana passada. O órgão russo de vigilância sanitária afirmou que a mulher teve uma pneumonia de origem desconhecida, sem evidências de que a doença tenha sido causada por agentes patogênicos estudados no instituto onde trabalhava.
A OMS pediu ao governo russo mais informações para esclarecer a causa da pneumonia grave, identificar qual agente patogênico levou à adoção de medidas de saúde pública e verificar relatos de que uma segunda funcionária também teria adoecido com pneumonia de causa indeterminada. Relatos não confirmados na Rússia atribuíram a morte à peste pneumônica, uma forma grave da doença que afeta os pulmões.
O episódio reacendeu preocupações sobre a transparência das autoridades russas em emergências de saúde. A comunicação oficial sobre o caso foi sucinta, enquanto os dados solicitados pela OMS ainda são necessários para esclarecer o que ocorreu. O Instituto de Pesquisa Antipeste de Irkutsk, da Sibéria e do Extremo Oriente, onde a funcionária trabalhava, pesquisa agentes patogênicos associados a doenças infecciosas.
A falta de informações detalhadas remete a episódios da era soviética, quando autoridades ocultaram ou demoraram a divulgar acidentes e surtos. Em alguns casos, medidas para conter doenças foram adotadas sem que a população soubesse da origem do risco. A escala do sigilo e as circunstâncias variaram de um episódio a outro.
No fim de 1959, o artista gráfico soviético Alexei Kokorekin morreu depois de voltar de uma viagem à Índia. Médicos inicialmente não identificaram a varíola, doença que se considerava erradicada havia décadas. Após a confirmação do diagnóstico, as autoridades rastrearam contatos, colocaram milhares de pessoas em isolamento e vacinaram milhões de moradores de Moscou e da região metropolitana.
Um voo da Aeroflot que levava uma pessoa exposta à doença foi instruído a retornar a Moscou antes de pousar em Paris, e as viagens de entrada e saída da capital foram suspensas. O surto teve 46 casos confirmados e três mortes e foi controlado em 44 dias. Embora a imprensa internacional tenha noticiado a operação, a mídia estatal soviética não divulgou o episódio; detalhes só vieram a público nos últimos anos da União Soviética.
Em 1971, durante testes de uma arma biológica com o vírus da varíola na ilha Vozrozhdeniya, no Mar de Aral, um navio de pesquisa passou perto de uma nuvem de microrganismos dispersos no ar. Uma bióloga a bordo contraiu a doença e a transmitiu a outras pessoas em Aralsk, então em território que hoje pertence ao Cazaquistão. Foram registradas dez infecções e três mortes; a cidade foi isolada e mais de 40 mil pessoas receberam vacina, sem que a população fosse informada do incidente.
O caso só se tornou amplamente conhecido em 2002, após pesquisadores americanos divulgarem documentos de antigos arquivos soviéticos. Em 1979, outro acidente envolvendo um laboratório secreto de armas biológicas provocou mortes por antraz em Sverdlovsk, hoje Ecaterimburgo. As autoridades atribuíram oficialmente os casos ao consumo de carne contaminada, e a dimensão do acidente permaneceu oculta até depois do fim da União Soviética, em 1991.
A demora em comunicar riscos também marcou o desastre de Chernobyl, em 1986. Após a explosão do reator número 4, a União Soviética levou 36 horas para ordenar a retirada dos moradores de Pripyat e inicialmente negou o acidente, mesmo depois de a Suécia detectar radiação. A divulgação de dados médicos e de vítimas foi censurada, apesar da política de abertura conhecida como glasnost, adotada pelo líder soviético Mikhail Gorbachev.
Durante a pandemia de Covid-19, veículos independentes russos e reportagens internacionais questionaram se o total de mortes divulgado pelas autoridades correspondia à dimensão real do impacto. O governo rejeitou as alegações e atribuiu o resultado a medidas como restrições a viagens, ações de contenção e testagem. No fim daquele ano, as autoridades reconheceram um número de mortes várias vezes superior ao anteriormente divulgado.
No início de 2022, a Rússia havia registrado mais de 13,5 milhões de casos confirmados e 338.091 mortes por Covid-19. A agência estatal de estatísticas Rosstat, que usa critérios mais abrangentes, contabilizou 681.100 mortes associadas ao vírus entre abril de 2020 e dezembro de 2021. Em 2020, o país também criminalizou a divulgação de informações consideradas falsas sobre ameaças à segurança pública.
“O sistema consegue silenciar, mas não tem competência suficiente para coordenar [as informações]. Por isso, produz contradições em vez de uma versão falsa unificada”, afirmou Judy Twigg, professora de ciência política da Universidade Virginia Commonwealth. A avaliação foi feita em comentários por escrito nesta semana.