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Segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Moradores de vila no Recife criam plano contra enchentes

A estratégia nasceu após as fortes chuvas em Pernambuco em 2022 e reúne alertas, rotas de fuga, retirada de moradores e ações de saúde.

Por Redação Plantão Paulista 3 min de leitura
Imagem gerada por IA: Moradores de uma comunidade ribeirinha se preparam para uma possível enchente. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Moradores de uma comunidade ribeirinha se preparam para uma possível enchente.
Resumo em 30 segundos

Após as chuvas de maio de 2022, que deixaram 133 mortos em Pernambuco, moradores da Vila Arraes, no Recife, organizaram um plano para reduzir os danos de enchentes. A iniciativa combina monitoramento de alertas, comunicação direta com famílias, retirada preventiva de pessoas e bens, abrigos e ações de saúde.

Moradores da Vila Arraes, na zona oeste do Recife, criaram um plano comunitário para se preparar para enchentes depois que as chuvas de maio de 2022 deixaram 133 mortos em Pernambuco. A iniciativa combina monitoramento de alertas, retirada preventiva de pessoas e bens, comunicação de rua e ações de saúde para reduzir os danos quando o rio Capibaribe sobe.

A comunidade fica no bairro da Várzea, às margens do Capibaribe. Durante as chuvas de 2022, duas pessoas morreram na vila e casas foram destruídas. “O rio chegou a levar casas inteiras”, disse Joice Paixão, socióloga, presidente da Associação Gris Espaço Solidário e liderança local. Segundo ela, algumas famílias ainda não puderam voltar para suas casas.

Paixão mobilizou moradores e parceiros, incluindo pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco, para fazer um censo e um levantamento topográfico. O trabalho identificou as áreas e os residentes mais vulneráveis entre os 479 imóveis da comunidade. As informações foram reunidas à experiência de mutirões da pandemia de Covid-19 e a treinamentos da Defesa Civil para estruturar o plano de redução de risco e adaptação climática.

Quando há previsão de chuva intensa, Paixão e uma vizinha monitoram alertas meteorológicos, imagens de satélite e sistemas atmosféricos. Se os sinais indicam possibilidade concreta de inundação, a comunidade ativa uma rota de fuga e brigadas divididas por tarefas, como logística, saúde mental e preventiva, comunicação e gestão de crise.

A preparação começa antes de a água chegar. Os moradores recebem orientação para montar uma “bolsa sobrevivência” com documentos, remédios de uso contínuo e uma muda de roupa. Os avisos circulam pelo WhatsApp, mas também de porta em porta, para alcançar idosos e pessoas sem acesso à internet. “Quem faz a comunicação analógica são as fofoqueiras da rua”, brincou Paixão, ao explicar que moradoras ficam responsáveis por avisar quem vive em determinadas ruas.

Se a inundação se torna iminente, as brigadas acionam pessoas dispostas a oferecer espaço para abrigos, ajudam a retirar móveis pesados e moradores com mobilidade reduzida, organizam refeições e contatam órgãos públicos. Depois da enchente, o protocolo prevê mobilização para vacinação contra doenças como hepatite e tétano.

O plano foi testado em maio, no feriado do Dia do Trabalhador. Paixão começou a emitir alertas na noite de 30 de abril; horas depois, tempestades atingiram o Recife e cidades próximas, deixando milhares de desabrigados e quatro mortos. Nenhuma morte foi registrada na Vila Arraes. A liderança afirmou que muitas famílias conseguiram retirar ao menos os móveis maiores, como geladeiras, fogões e camas.

Paixão disse que o monitoramento local é importante porque os alertas oficiais podem não refletir a situação de cada trecho da comunidade. “Muitas vezes, quando a prefeitura diz que está em alerta amarelo, que é o primeiro nível, tem territórios que já estão no alerta laranja ou vermelho, que começaram a alagar”, afirmou. O nível do rio também pode subir rapidamente, dificultando a remoção de pessoas e pertences se a preparação começar tarde.

O risco de enchentes é uma preocupação ampla na capital pernambucana. Um relatório do Instituto para a Redução de Riscos e Desastres da Universidade Federal Rural de Pernambuco estima que 44% do território do Recife tem alto risco de inundações e alagamentos. A cidade também aparece como a 16ª capital do mundo mais vulnerável à elevação do nível do mar, segundo o painel de ciência climática das Nações Unidas.

A experiência da Vila Arraes está entre 20 iniciativas brasileiras reunidas pelo Greenpeace no relatório “As soluções dos territórios: adaptação climática baseada em comunidades”. O estudo, feito em parceria com o laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e a consultoria Brisa Soluções Ambientais, mapeia respostas locais a riscos como enchentes, incêndios, secas, erosão costeira, ondas de calor e deslizamentos.

Leilane Reis, coordenadora da frente de justiça climática do Greenpeace Brasil, afirmou que projetos comunitários precisam de financiamento e participação dos moradores. Segundo ela, investimentos climáticos costumam priorizar medidas para reduzir emissões de carbono, enquanto a adaptação recebe menos atenção. Reis também apontou que exigências burocráticas podem dificultar o acesso de iniciativas locais a recursos, apesar de elas serem desenvolvidas para responder a riscos específicos de cada território.

Fontes: Folha de S.Paulo

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