IPCC discute calendário dos próximos relatórios sobre clima
Países divergem sobre concluir os três documentos até setembro de 2028 ou adiar parte deles para 2029, antes das negociações ligadas ao Acordo de Paris.
Resumo em 30 segundos
Os 195 Estados-membros do IPCC discutirão em Adis Abeba o calendário dos próximos três relatórios científicos sobre mudanças climáticas. Alguns países defendem concluir os documentos até setembro de 2028, antes das negociações climáticas da ONU; outros pedem mais tempo e querem adiar dois relatórios para 2029. A disputa envolve participação de pesquisadores, prazos e prioridades climáticas.
Os 195 Estados-membros do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) ainda não chegaram a um acordo sobre quando serão publicados os próximos relatórios científicos do órgão. A disputa será discutida a partir de segunda-feira (12), em uma reunião em Adis Abeba, na Etiópia, considerada uma oportunidade para definir o calendário antes das negociações climáticas da ONU de novembro de 2028.
As avaliações do IPCC reúnem pesquisas sobre causas e impactos das mudanças climáticas e opções para enfrentá-las. Publicadas normalmente a cada cinco a sete anos, elas servem de referência para governos e negociadores internacionais, inclusive nas discussões relacionadas ao Acordo de Paris, firmado em 2015. A próxima rodada terá três relatórios, sobre a dimensão e as causas do aquecimento, a vulnerabilidade e a adaptação, e as medidas para limitar o agravamento das mudanças climáticas.
Os presidentes dos grupos de trabalho responsáveis pelos documentos propuseram aprovar os três até setembro de 2028, antes da reunião em que os governos devem avaliar o progresso em relação às metas do Acordo de Paris. O copresidente francês Robert Vautard afirmou que o cronograma foi elaborado com base na carga de trabalho prevista, e não para coincidir com a cúpula da ONU.
Países que se opõem ao plano querem adiar os segundo e terceiro relatórios para 2029. Índia, Quênia, Arábia Saudita, Rússia e China pedem mais tempo para que cientistas com menos recursos possam participar e para que os milhares de estudos sejam analisados, revisados e negociados entre especialistas e governos.
“Se o processo avançar muito rapidamente [...], ele não será inclusivo”, disse Joyce Kimutai, cientista climática que representa o Quênia no IPCC. Países em desenvolvimento argumentam que seus pesquisadores têm menos condições de publicar estudos revisados por pares e que as perspectivas dessas nações aparecem pouco nas avaliações.
Thiagarajan Jayaraman, representante da Índia no painel, disse que é “míope” avaliar a importância dos relatórios apenas por sua contribuição às negociações de 2028. Ele também questiona a forma como os modelos do IPCC consideram as contribuições históricas dos países ricos para o aquecimento global e as necessidades de desenvolvimento dos países mais pobres.
O Ministério da Economia da Rússia afirmou que apresentar o debate como um embate entre produtores de petróleo e defensores de prazos curtos é uma “deturpação deliberada”. O órgão também disse que sincronizar o ciclo de avaliação com as negociações da ONU levanta dúvidas sobre a independência do IPCC. Representantes da Arábia Saudita e da China defenderam argumentos semelhantes em reuniões anteriores.
Do outro lado, mais de 30 países, entre eles nações europeias, latino-americanas e pequenos Estados insulares, apoiam a publicação antes das negociações de 2028. Em comunicado divulgado na sexta-feira (8), a Coalizão de Alta Ambição afirmou que os dados científicos permitem uma resposta “justa, equitativa e baseada em evidências” à crise climática.
A coalizão e outros defensores do calendário dizem que, sem os novos documentos, os negociadores teriam de se apoiar em avaliações publicadas em 2021 e 2022. As discussões de 2028 devem orientar decisões sobre financiamento climático e metas de redução de emissões. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente considera insuficientes os esforços globais atuais para limitar o aquecimento e afirma que são necessárias reduções mais rápidas das emissões.
O impasse ocorre em meio a divergências sobre a divisão dos custos e responsabilidades pela resposta climática. Governos críticos às políticas de redução de emissões dizem que elas podem prejudicar a competitividade e limitar o uso de combustíveis baratos por economias emergentes. Países favoráveis a medidas mais firmes, por sua vez, temem que a demora nos relatórios enfraqueça a base científica das próximas decisões.
A discussão também envolve a possibilidade de o aquecimento ultrapassar temporariamente o limite de 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais. Em 2024, a temperatura média global ficou acima desse patamar pela primeira vez. Os novos relatórios deverão abordar lacunas sobre os efeitos dessa ultrapassagem e sobre intervenções para retirar dióxido de carbono da atmosfera.
O presidente do IPCC, Jim Skea, afirmou em junho que os documentos incluirão, pela primeira vez, capítulos dedicados ao financiamento climático e às formas de lidar com danos irreversíveis em alguns países. Os Estados Unidos, maior financiador do painel, deixaram a organização em janeiro, segundo a reportagem. A reunião em Adis Abeba deverá definir se os governos conseguem aprovar um calendário que permita concluir os relatórios antes das negociações de 2028 ou se parte da avaliação ficará para 2029.
Para entender
- IPCC
- O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas é um organismo das Nações Unidas que avalia pesquisas científicas sobre as mudanças climáticas. Suas avaliações sintetizam conhecimentos sobre causas, impactos e respostas possíveis; não são pesquisas próprias nem decisões de política pública.
- Acordo de Paris
- Tratado internacional adotado em 2015 para enfrentar as mudanças climáticas. Seus países signatários assumiram compromissos de limitar o aquecimento global e atualizar esforços nacionais de redução de emissões e adaptação.