Fóssil egípcio chamado Tomistoma cairense é reclassificado
A análise publicada em 6 de outubro identifica o réptil de 48 milhões de anos como parente extinto do gavial-indiano, e não do falso-gavial.
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Uma nova análise de fósseis encontrados no Egito reclassificou o réptil antes chamado Tomistoma cairense como Herugavialis cairensis, espécie extinta aparentada ao gavial-indiano. Tomografia computadorizada e comparações anatômicas distinguiram o animal de outros gavialoides. O fóssil viveu há cerca de 48 milhões de anos, em um ambiente de mar raso.
Uma nova análise de um fóssil de réptil encontrado no Egito concluiu que ele pertence a uma espécie extinta, aparentada ao gavial-indiano, e não ao falso-gavial, como se acreditava desde sua descrição, em 1927. O animal, que viveu há cerca de 48 milhões de anos, recebeu o nome de Herugavialis cairensis; seus restos foram descobertos em rochas usadas na construção da Grande Esfinge de Gizé, no fim do século 19.
O estudo, publicado em 6 de outubro na revista Royal Society Open Science, reavaliou o crânio original e outros fragmentos atribuídos ao réptil, entre eles partes da mandíbula e do focinho. Os pesquisadores usaram tomografia computadorizada para reconstruir estruturas ósseas e comparar a anatomia do fóssil com a de gaviais atuais e de outras espécies extintas.
A análise identificou diferenças nas órbitas oculares, na região posterior do crânio e na caixa craniana, que abriga o encéfalo. Os ossos lacrimais, situados à frente dos olhos, também são alongados. Em conjunto, essas características permitem distinguir a espécie de outros gavialoides, grupo de crocodiliformes que inclui o gavial-indiano e o falso-gavial.
O nome antigo, Tomistoma cairense, foi dado em 1927 pelo paleontólogo Lorenz Müller, do Museu de História Natural de Stuttgart, na Alemanha. Ele associou o fóssil ao falso-gavial (Tomistoma schlegelii), espécie que vive atualmente no Sudeste Asiático, por causa de semelhanças anatômicas. A reclassificação agora o coloca na linhagem do gavial-indiano (Gavialis gangeticus), que vive no rio Ganges, na Índia.
A identificação também esclarece que o réptil egípcio não tinha parentesco com outras espécies de gavialoides que viveram no Mediterrâneo durante o Paleógeno, período geológico que abrangeu parte do tempo entre cerca de 66 milhões e 23 milhões de anos atrás. Segundo os pesquisadores, três espécies distintas desse grupo habitaram o Egito em diferentes momentos, sem formar uma sequência evolutiva direta.
Além de Herugavialis cairensis, o registro egípcio inclui Paratomistoma courti, que viveu há aproximadamente 41 milhões de anos, e Eogavialis africanum, de cerca de 37 milhões de anos atrás. Os fósseis dessas duas espécies foram encontrados nas formações Gehannam e Qasr el-Sagha, perto de Faium, ao sul do Cairo.
A nova análise amplia o entendimento da diversidade de crocodiliformes no passado. O grupo, que inclui crocodilos, jacarés e gaviais, tinha mais espécies e ocupava uma área maior do que hoje. O registro fóssil reúne mais de 40 espécies distribuídas pelo norte da África, Ásia, Europa e América do Norte.
Herugavialis cairensis vivia em um ambiente de mar raso, diferente do habitat fluvial do gavial-indiano atual. A descoberta ajuda a reconstruir a distribuição dos gavialoides no norte da África, onde diferentes linhagens ocuparam regiões costeiras ao longo da margem sul do antigo mar de Tétis.
Os pesquisadores relacionam mudanças na diversidade do grupo a transformações ambientais. Na transição do Eoceno para o Oligoceno, o resfriamento global e a queda do nível dos oceanos coincidiram com extinções de linhagens de gavialoides no Mediterrâneo. Fósseis de períodos posteriores, encontrados na Itália, em Portugal e em Malta, pertencem a linhagens diferentes.
O material original foi encontrado pelo paleontólogo alemão Richard Markgraf, cuja expedição teria ocorrido no fim do século 19, embora os registros não permitam determinar com precisão o ano. O fóssil tem idade estimada em 48 milhões de anos, correspondente ao Eoceno Médio. Como o pré-maxilar, osso que forma a ponta do focinho, não foi preservado, essa parte do crânio precisou ser reconstruída pelos pesquisadores.