Estudo situa a origem dos animais entre 800 milhões e 700 milhões de anos
A análise de fósseis microscópicos da Mongólia questiona se a ausência de restos animais em certos depósitos permite determinar quando eles surgiram.
Resumo em 30 segundos
Uma análise de fósseis microscópicos da biota de Kheseen, na Mongólia, questiona a ideia de que depósitos bem preservados sem restos de animais provem que eles ainda não existiam. Com dados de rochas antigas e relógio molecular, pesquisadores estimaram a origem do reino animal entre 800 milhões e 700 milhões de anos atrás, mas ressaltam que a hipótese não está comprovada.
Uma nova análise de fósseis microscópicos da Mongólia sugere que os animais podem ter surgido entre 800 milhões e 700 milhões de anos atrás — até 200 milhões de anos antes do que estimativas anteriores. O estudo, publicado neste mês na revista Science Advances, não comprova a existência de animais nessa época, mas questiona a ideia de que a falta de fósseis em certos depósitos permita descartar essa possibilidade.
A pesquisa examinou mais de uma centena de amostras da biota de Kheseen, um conjunto de fósseis preservado em rochas da Mongólia. Embora os microfósseis estejam bem conservados, não foram identificados ali restos de animais. O depósito é cerca de 40 milhões de anos mais jovem que a biota de Weng’an, na China, um sítio conhecido por preservar organismos microscópicos com grande detalhe, mas sem fósseis considerados animais.
A qualidade excepcional de Weng’an levou pesquisadores a supor que os animais ainda não existiam quando seus organismos foram preservados. O raciocínio era que, se já estivessem presentes, deveriam aparecer naquele registro. Kheseen enfraquece essa conclusão: também não contém fósseis de animais, apesar de outros registros indicarem que eles já existiam no mesmo período.
“A biota de Kheseen refuta o argumento de que os excepcionais microfósseis de Weng'an implicam que teríamos encontrado fósseis de animais naquele depósito caso eles existissem na época”, afirmou o autor Ross Anderson. Segundo ele, condições químicas em determinados ambientes podem impedir a fossilização de alguns organismos. Assim, a ausência de fósseis em um sítio não prova, por si só, que os animais não viviam naquele momento.
Com Weng’an descartado como um limite seguro para a data de origem, a equipe considerou depósitos ainda mais antigos, de 850 milhões a 730 milhões de anos, encontrados na Noruega, na Austrália e nos Estados Unidos. Eles não contêm fósseis de animais, mas a composição química das rochas sugere que poderiam preservá-los caso estivessem presentes.
Os pesquisadores combinaram essas referências com o chamado relógio molecular. A técnica compara diferenças genéticas entre espécies atuais e as relaciona às idades dos fósseis para estimar quando viveram ancestrais comuns. O cálculo levou a origem do reino animal para o intervalo de 800 milhões a 700 milhões de anos atrás, embora os fósseis corporais confirmados sejam posteriores.
A hipótese também é compatível com biomarcadores químicos encontrados em rochas antigas, interpretados como possíveis sinais de esponjas primitivas de pelo menos 650 milhões de anos. Esses organismos teriam corpo mole e tamanho reduzido, características que diminuem a chance de fossilização em comparação com animais posteriores, que desenvolveram conchas, ossos e outras estruturas resistentes.
Se a estimativa estiver correta, os primeiros passos da evolução animal coincidiram com o período Criogeniano, quando ocorreram glaciações globais. Uma delas começou há cerca de 720 milhões de anos e cobriu grande parte do planeta de gelo, fenômeno conhecido como “Terra Bola de Neve”.
Os autores ressaltam que o estudo não demonstra definitivamente que animais existiam há 800 milhões de anos. “Até que a evidência esteja disponível, a data exata de surgimento do reino animal continua incerta”, disse Anderson. O coautor Derek Briggs, professor da Universidade Yale, afirmou que os resultados contribuem para investigar quando surgiram inovações biológicas e como os animais se diversificaram.
Para entender
- Relógio molecular
- Método que compara diferenças genéticas entre espécies atuais para estimar há quanto tempo seus ancestrais comuns viveram. As estimativas dependem de referências como a idade dos fósseis e ajudam a investigar períodos anteriores aos registros corporais conhecidos.
- Terra Bola de Neve
- Nome dado a episódios de glaciação extrema durante os quais grandes áreas do planeta, possivelmente quase toda a superfície, ficaram cobertas por gelo. O texto relaciona a hipótese de origem animal ao período Criogeniano, quando ocorreu uma dessas glaciações.