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Segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Estudo aponta sintomas de TEPT em 31,2% dos civis ucranianos

Pesquisa com mais de 2,5 mil pessoas também registrou alta exposição a traumas; os relatos não permitem atribuir todos os casos à guerra.

Por Redação Plantão Paulista 3 min de leitura
Imagem gerada por IA: Duas pessoas conversam em uma sala de atendimento psicossocial. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Duas pessoas conversam em uma sala de atendimento psicossocial.
Resumo em 30 segundos

Um estudo publicado na revista European Journal of Psychotraumatology identificou sintomas de transtorno de estresse pós-traumático em 31,2% dos civis ucranianos entrevistados. Mais de 90% relataram ao menos uma experiência traumática na vida adulta. Os pesquisadores ressaltam que os sintomas são autorrelatados e que traumas anteriores também podem contribuir para o quadro.

Quase um terço dos civis ucranianos — 31,2% — apresenta sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), incluindo uma forma complexa do distúrbio, segundo um estudo com mais de 2,5 mil pessoas. A pesquisa avaliou moradores de regiões que estão ou voltaram a ficar sob controle do governo da Ucrânia, em meio à guerra em larga escala iniciada pela Rússia há mais de quatro anos.

O levantamento foi conduzido pela rede internacional de pesquisa Cooperação e Conflito no Leste Europeu (KonKoop), com financiamento do Ministério da Pesquisa da Alemanha. Os resultados foram publicados na revista científica European Journal of Psychotraumatology. Os pesquisadores entrevistaram participantes sobre experiências traumáticas e sintomas, portanto o percentual se baseia em relatos dos próprios entrevistados, que podem ter sido influenciados pela interpretação das perguntas.

O TEPT pode surgir depois que alguém vivencia ou presencia uma ameaça real ou potencial à própria vida, à integridade física ou à segurança de outras pessoas. O trauma pode continuar afetando a saúde mental muito tempo depois do episódio. Entre os sintomas estão flashbacks — lembranças que parecem fazer a pessoa reviver a experiência —, ansiedade, irritabilidade e problemas de sono. Em geral, os sinais não aparecem necessariamente logo após o evento.

A proporção identificada na Ucrânia é mais de três vezes superior à estimativa de menos de 10% da população mundial que atende aos critérios do transtorno. A principal autora do estudo, Emma Facer-Irwin, pesquisadora do King's College London e psicóloga clínica, ressalvou que não é possível atribuir todos os casos à invasão: experiências traumáticas anteriores ou sem relação com a guerra também podem contribuir para o quadro.

Ainda assim, os relatos apontam para uma exposição ampla à violência e à insegurança. Mais de 90% dos participantes disseram ter vivido ao menos uma experiência traumática na idade adulta, embora nem todas estivessem ligadas ao conflito. Metade afirmou ter um familiar na linha de frente; mais de 70% relataram bombardeios na região onde moram, e 65% disseram ter presenciado destruição provocada pela guerra.

Facer-Irwin afirmou que a quantidade de traumas acumulados ao longo da vida aumenta a probabilidade de desenvolver o transtorno. Como a pesquisa abrange civis, e não apenas militares ou pessoas deslocadas para outros países, a guerra pode ser um fator importante para o desenvolvimento e a disseminação dos sintomas, avaliou a pesquisadora. A coordenadora do estudo, Deirdre MacManus, professora de psiquiatria forense do King's College London, destacou a dimensão dos traumas registrados.

A pesquisa também indica que ter passado por situações traumáticas não leva necessariamente a um transtorno persistente: cerca de dois terços da população não relataram os sintomas avaliados como TEPT. Facer-Irwin apontou o apoio social e o sentimento de pertencimento como fatores que podem ajudar a proteger a saúde mental. Ela levantou a hipótese de que a identidade nacional e a percepção de uma sociedade que enfrenta a invasão em conjunto também possam ter um papel.

Na cidade de Vinítsia, a cerca de 350 quilômetros de Kiev, a organização Médicos Sem Fronteiras oferece atendimento psicossocial a pessoas afetadas pelo conflito. Ruslana Lutsyk-Andrushko, conselheira da entidade, disse que o tratamento começa com a estabilização emocional e o desenvolvimento de recursos para enfrentar a situação. Depois, as memórias traumáticas são trabalhadas, e os pacientes aprendem a levar para o cotidiano as estratégias desenvolvidas durante o acompanhamento.

A proposta é que as pessoas consigam usar essas ferramentas para lidar com situações de estresse e também apoiar filhos e amigos. Lutsyk-Andrushko afirmou que a guerra, o luto, o deslocamento e a ameaça de novos ataques mantêm muitos ucranianos sob pressão constante. Segundo ela, a falta de perspectivas de melhora provoca desgaste, e as pessoas precisam de esperança e confiança no futuro.

Facer-Irwin afirmou que os dados representam um retrato do momento e não permitem dimensionar completamente as consequências futuras do conflito. Os efeitos de longo prazo devem ficar mais claros quando a população puder estar em segurança e se recuperar da guerra, disse a pesquisadora. Enquanto isso, o estudo destaca a necessidade de combinar terapias voltadas ao trauma com serviços de apoio social capazes de atender uma parcela maior da população.

Para entender

TEPT
O transtorno de estresse pós-traumático pode surgir após uma experiência que envolva ameaça à vida ou à integridade física. Entre os sintomas possíveis estão lembranças intrusivas, ansiedade, irritabilidade e problemas de sono; eles podem aparecer algum tempo depois do trauma.

Fontes: Folha de S.Paulo

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