Bahia, Ceará e Piauí reelegem governadores do PT no primeiro turno
O resultado manteve o partido no poder nos três estados, apesar do avanço de Flávio Bolsonaro no Nordeste e de disputas mais acirradas na Bahia e no Ceará.
Resumo em 30 segundos
Jerônimo Rodrigues, Elmano de Freitas e Rafael Fonteles foram reeleitos no primeiro turno e mantiveram o PT no governo da Bahia, do Ceará e do Piauí. As margens foram mais apertadas na Bahia e no Ceará. Analistas relacionam a continuidade do partido a políticas sociais, identificação com Lula e estruturas políticas locais.
Bahia, Ceará e Piauí mantiveram governos do PT após as eleições estaduais, com os três candidatos petistas reeleitos no primeiro turno. O resultado preservou a sequência de administrações do partido nos estados, mesmo em uma eleição marcada pelo avanço de Flávio Bolsonaro no Nordeste e por disputas mais acirradas, especialmente na Bahia e no Ceará.
Na Bahia, Jerônimo Rodrigues obteve 4,62 milhões de votos, equivalentes a 55,79% dos válidos, contra 3,62 milhões (43,72%) de ACM Neto, do União Brasil. A vitória garantiu ao PT o sexto mandato consecutivo no governo estadual, que a sigla comanda desde 2007. A diferença entre os dois foi de 12,07 pontos percentuais.
A margem foi menor que a registrada por Rui Costa em suas vitórias anteriores. Em 2014, ele derrotou Paulo Souto, então no Democratas, por 54,53% a 37,39%. Em 2018, ampliou a vantagem e venceu Zé Ronaldo, também do Democratas, por 75,50% a 22,26%. Na eleição de 2022, Jerônimo chegou ao segundo turno: terminou a primeira etapa com 49,45%, ante 40,80% de ACM Neto, e venceu depois por 52,79% a 47,21%.
ACM Neto concentrou críticas no desgaste dos governos petistas e, em particular, na segurança pública. Em setembro, chegou a aparecer numericamente à frente em pesquisas, mas não converteu essa posição em vitória. A campanha também foi atravessada por questionamentos relacionados ao Banco Master: Jaques Wagner, do PT, e pessoas de seu entorno foram pressionados pelas investigações, enquanto ACM Neto foi questionado por pagamentos de R$ 3,6 milhões feitos pelo banco e pela Reag à sua empresa. Ele disse que os valores eram legais e correspondiam a serviços de consultoria. Wagner negou irregularidades.
Na disputa pelo Senado na Bahia, Rui Costa e Jaques Wagner conquistaram as duas vagas. Rui recebeu 4,33 milhões de votos, ou 30,06% dos válidos, e Wagner, 3,99 milhões (27,65%). Angelo Coronel, do Republicanos, teve 20,11%, e João Roma, do PL, 19,97%.
No Ceará, Elmano de Freitas foi reeleito com 53,19% dos votos válidos, contra 46,22% de Ciro Gomes, do PSDB. A diferença de 6,97 pontos percentuais assegurou ao PT o quarto mandato consecutivo no estado. Ciro havia liderado levantamentos durante a campanha: no primeiro Datafolha após as convenções, tinha 52% das intenções de voto, contra 33% de Elmano. A distância diminuiu ao longo de setembro, e o candidato petista virou a disputa na reta final.
Ciro retornou ao estado onde construiu sua carreira política depois de quatro derrotas em eleições presidenciais e formou uma frente de oposição com União Brasil, PP e PL. Elmano associou sua campanha a Lula, enquanto Ciro direcionou parte das críticas à segurança pública. Cid Gomes, irmão e adversário político de Ciro, foi reeleito senador pelo PSB com 31,22% dos votos.
No Piauí, Rafael Fonteles teve 70,90% dos votos válidos, ante 27,54% de Joel Rodrigues, do PP. A reeleição assegurou ao PT mais quatro anos no governo e o quarto mandato consecutivo no estado desde 2015. Fonteles já havia vencido no primeiro turno em 2022, quando recebeu 57,17%. Joel contou com o apoio do senador Ciro Nogueira, mas não transformou a disputa em ameaça ao governador; na última pesquisa Datafolha antes da votação, Fonteles tinha 67% dos votos válidos, contra 28% do adversário.
Analistas ouvidos sobre as disputas apontam que o resultado não depende apenas da identificação dos eleitores com Lula ou das políticas sociais. André Mota, cientista político, afirma que programas como o Bolsa Família, que alcançava quase metade das famílias nordestinas a partir de 2006, ajudaram a criar uma ligação entre eleitores de baixa renda e governos petistas. Ele também descreve o voto na região como primeiro lulista e, depois, petista, associado à origem e à trajetória de Lula.
Paulo Ramirez, professor da ESPM, relaciona a permanência desse apoio à memória de mudanças na vida cotidiana, como o acesso a água encanada e alimentação. Também destaca que, em cidades menores, o contato próximo entre políticos e eleitores pode ajudar a conservar a base partidária. Adriano Oliveira, professor e analista eleitoral da Universidade Federal de Pernambuco, atribui parte da continuidade à estrutura construída por grupos que permanecem no governo por longos períodos.
Mota considera o Piauí o exemplo mais nítido de um “partido-estado”, expressão usada para descrever uma situação em que a máquina pública e a organização eleitoral se combinam em uma estrutura duradoura de poder. Ele afirma que a dependência do estado em relação ao Fundo de Participação dos Estados (FPE) e a ausência de uma elite econômica independente capaz de financiar a oposição ajudam a explicar esse quadro. No Ceará, Oliveira também destaca os 12 anos de governo do grupo petista e sua influência sobre a política de Fortaleza.