Pesquisadores detectam sinal de rádio no exoplaneta Beta Pictoris b
Emissões observadas pelo radiotelescópio MeerKAT podem ser causadas por uma aurora e permitiram medir diretamente, pela primeira vez, o campo magnético de um exoplaneta.
Resumo em 30 segundos
Pesquisadores associaram ao exoplaneta Beta Pictoris b sinais de rádio detectados pelo radiotelescópio MeerKAT entre 2025 e 2026. A explicação mais provável é uma aurora, não uma transmissão artificial. Os dados também permitiram a primeira medição direta do campo magnético de um planeta fora do Sistema Solar. O estudo ainda não passou por revisão por pares.
Pesquisadores dos Estados Unidos detectaram sinais de rádio associados ao exoplaneta Beta Pictoris b, localizado a cerca de 63 anos-luz da Terra. As emissões foram observadas com o radiotelescópio MeerKAT, na África do Sul, entre fevereiro de 2025 e maio de 2026. É a primeira vez que um sinal desse tipo é localizado de forma inequívoca em um planeta fora do Sistema Solar, e não apenas em sua estrela.
O registro foi descrito em um artigo publicado na plataforma arXiv em meados de setembro. O estudo ainda não passou por revisão por pares, etapa em que especialistas independentes avaliam os métodos e as conclusões de uma pesquisa antes de sua publicação em um periódico científico.
As ondas detectadas incluíam rajadas rápidas e repetidas em frequências de 0,85 a 3,5 gigahertz. No início, os cientistas sabiam que o sinal vinha do sistema Beta Pictoris, que abriga a estrela de mesmo nome e os planetas Beta Pictoris b, Beta Pictoris c e Beta Pictoris d. A análise permitiu associar a emissão ao planeta b.
A explicação considerada mais provável pelos pesquisadores é uma aurora. O fenômeno ocorre quando partículas de alta energia provenientes de uma estrela interagem com a atmosfera superior de um planeta. Auroras também são observadas na Terra e em outros planetas do Sistema Solar.
A equipe descartou a hipótese de que as emissões sejam uma tentativa de comunicação de uma civilização extraterrestre. Sinais artificiais podem ser procurados como possíveis “tecnoassinaturas”, isto é, indícios de tecnologia produzida por uma civilização, mas os cientistas não consideram que esse seja o caso de Beta Pictoris b.
Os dados também permitiram fazer a primeira medição direta da intensidade do campo magnético de um exoplaneta. Os pesquisadores concluíram que o campo de Beta Pictoris b é extremamente forte, resultado compatível com modelos teóricos para planetas jovens e massivos. A emissão pode ser alimentada pela rotação rápida do planeta, que completa uma volta em oito ou nove horas.
Um campo magnético forma uma magnetosfera, região que pode ajudar a proteger a atmosfera de um planeta. Por isso, medir sua intensidade contribui para entender como esses sistemas funcionam e como podem influenciar condições favoráveis à vida. A astrofísica Suzanne Aigrain, professora da Universidade de Oxford, apontou outro mecanismo natural possível para gerar ondas de rádio: a reconexão magnética, quando os campos magnéticos do planeta e da estrela interagem. Esse processo foi descartado pelos autores do estudo.
A busca por emissões de rádio de exoplanetas ocorre desde a descoberta desses mundos, em 1990. Antes deste trabalho, houve detecções indiretas e provisórias, mas não era possível determinar com segurança se os sinais vinham do planeta ou da estrela que o hospeda.
Os pesquisadores pretendem aplicar o método a outros sete exoplanetas gigantes, distribuídos por cinco sistemas estelares próximos. Eles esperam que radiotelescópios de próxima geração, com sensibilidade de cinco a sete vezes maior, permitam detectar esses alvos.
Para entender
- Aurora
- Fenômeno produzido quando partículas de alta energia interagem com a atmosfera superior de um planeta. Na Terra, auroras podem ser vistas perto das regiões polares; emissões semelhantes também ocorrem em outros planetas.
- Reconexão magnética
- Processo em que campos magnéticos se reorganizam e liberam energia. Em sistemas planetários, pode ocorrer pela interação entre os campos da estrela e do planeta e é uma possível fonte natural de ondas de rádio.