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Quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Hidrodissecção pode prolongar alívio da síndrome do túnel do carpo

Ensaio com 63 pacientes aponta benefícios por até 24 semanas, mas especialistas destacam limitações e dizem que são necessários novos estudos.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Profissional de saúde examina o punho de um paciente com aparelho de ultrassom. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Profissional de saúde examina o punho de um paciente com aparelho de ultrassom.
Resumo em 30 segundos

Um ensaio clínico com 63 pessoas que não melhoraram com o tratamento convencional observou alívio mais duradouro após hidrodissecção guiada por ultrassom do que após uma injeção isolada de corticoide. A técnica injeta líquido ao redor do nervo mediano. Especialistas ressaltam limitações do estudo e a necessidade de pesquisas maiores; o procedimento não substitui avaliação médica.

Um ensaio clínico com 63 pacientes sugere que a hidrodissecção guiada por ultrassom pode aliviar por mais tempo os sintomas da síndrome do túnel do carpo do que uma injeção isolada de corticoide. O estudo, conduzido por pesquisadores indianos e publicado na revista científica Radiology, acompanhou pessoas que não haviam melhorado com o tratamento convencional; os autores ressaltam que são necessárias novas pesquisas para confirmar os resultados.

A síndrome acontece quando o nervo mediano é comprimido dentro do túnel do carpo, um canal estreito no punho, na base da palma da mão. Por ali também passam tendões que ajudam a dobrar os dedos. Inflamações ou outras condições que aumentem a pressão no espaço podem apertar o nervo e provocar sintomas.

O nervo mediano participa da sensibilidade da mão. Entre os sinais da síndrome estão formigamento, especialmente à noite ou ao acordar, dor e perda de força. Em quadros mais avançados, a alteração sensitiva pode persistir durante o dia e dificultar tarefas cotidianas, como segurar objetos ou abrir um pote.

No estudo, os participantes foram distribuídos em três grupos. Dois receberam hidrodissecção do nervo mediano orientada por ultrassom: em um grupo, os pesquisadores injetaram apenas soro fisiológico; no outro, combinaram o soro com corticoide. O terceiro grupo recebeu somente corticoide, também com orientação por ultrassom.

A hidrodissecção consiste em injetar líquido ao redor do nervo para separá-lo de estruturas próximas e aliviar a pressão local. Embora seja usada junto com corticoides em alguns tratamentos, a pesquisa avaliou também o método com soro fisiológico sozinho. Os sintomas, a capacidade funcional e a área do nervo foram examinados após quatro, 12 e 24 semanas.

Os três grupos apresentaram melhora significativa na primeira avaliação, feita quatro semanas depois do procedimento. Nos grupos submetidos à hidrodissecção, porém, os ganhos em sintomas e função continuaram nos acompanhamentos posteriores. Já entre os pacientes que receberam apenas corticoide, houve retorno dos sintomas, segundo os resultados do estudo.

A área do nervo mediano diminuiu até 45% após a hidrodissecção, enquanto a redução foi de cerca de 15% no grupo tratado somente com corticoide. A inclusão do medicamento na solução da hidrodissecção não acrescentou benefício significativo a longo prazo em relação ao soro fisiológico isolado.

Anupama Tandon, coautora do estudo e professora do Departamento de Radiodiagnóstico e Imagem do University College of Medical Sciences e do Guru Teg Bahadur Hospital, afirmou que os resultados indicam melhora clínica e nas medidas do nervo. Ela considera que o procedimento pode merecer avaliação como opção para casos leves a moderados que não respondem ao tratamento convencional. A equipe, no entanto, aponta a necessidade de estudos com mais participantes, realizados em diferentes centros e com acompanhamento mais longo.

A médica ortopedista Raquel Bernardelli Iamaguchi, presidente da Comissão de Educação Continuada da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão, recomenda cautela ao interpretar os achados. Segundo ela, o estudo não comparou adequadamente a gravidade dos casos entre os grupos e não separou os participantes conforme os resultados da eletroneuromiografia, exame que ajuda a classificar a síndrome como leve, moderada ou acentuada.

Iamaguchi também observa que o artigo não detalhou a distribuição dos pacientes e que o radiologista responsável pelo procedimento foi o mesmo que avaliou os casos. Sem cegamento, a avaliação pode estar sujeita a tendenciosidade. Além disso, o estudo não comparou a hidrodissecção com a cirurgia, que costuma ser indicada para quadros moderados ou graves e para situações que não melhoram com outras abordagens.

O tratamento inicial geralmente busca reduzir fatores que favorecem a compressão. Isso pode incluir identificar e evitar movimentos repetitivos, corrigir posições inadequadas do punho — sobretudo durante o sono — e tratar alterações metabólicas associadas. Fisioterapia ou terapia ocupacional também podem ser recomendadas. Se essas medidas não forem suficientes, o médico pode considerar uma infiltração, normalmente com corticoide.

A injeção de corticoide pode oferecer alívio temporário e, em alguns casos, exigir repetição. A pesquisadora Tandon também aponta riscos como alterações na pele, afinamento da gordura local e enfraquecimento dos tendões. A hidrodissecção é uma alternativa minimamente invasiva, mas, segundo Iamaguchi, ainda é uma abordagem inicial e não substitui a avaliação médica nem elimina necessariamente a causa mecânica da compressão.

A síndrome é mais frequente em mulheres de meia-idade, especialmente no período da perimenopausa ou depois dele, conforme a especialista. Como a pressão sobre o nervo depende do espaço disponível no túnel, mudanças de hábitos e o controle de condições associadas continuam importantes. A indicação de tratamento — clínico, procedimento ou cirurgia — depende da gravidade dos sintomas e da resposta de cada paciente.

Para entender

Hidrodissecção
Procedimento guiado por imagem que injeta líquido ao redor de um nervo para separá-lo de estruturas próximas. Na síndrome do túnel do carpo, a técnica busca aliviar a pressão sobre o nervo mediano; pode ser feita com soro fisiológico, com ou sem corticoide.
Nervo mediano
Nervo que passa pelo túnel do carpo, no punho, e participa da sensibilidade de parte da mão e de movimentos do polegar. A compressão desse nervo pode causar formigamento, dor e perda de força.

Fontes: Estadão

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