Greve na Caixa atrasa repasses e pressiona incorporadoras de baixa renda
A paralisação de 20 dias em setembro afetou o caixa de empresas ligadas ao Minha Casa, Minha Vida; o impacto total ainda não foi calculado.
Resumo em 30 segundos
A greve de 20 dias dos bancários da Caixa em setembro atrasou etapas de financiamentos habitacionais e repasses a incorporadoras de baixa renda. Na MRV, o efeito negativo no caixa foi estimado em R$ 80 milhões. Cury e Tenda também registraram aumento nos distratos, influenciados tanto pela paralisação quanto pelo maior rigor na análise de crédito.
A greve nacional dos bancários da Caixa Econômica Federal, que durou 20 dias em setembro, atrasou repasses a incorporadoras voltadas à baixa renda e afetou o fluxo de caixa do setor no terceiro trimestre de 2026. O impacto foi mais relevante para empresas dependentes do Minha Casa, Minha Vida (MCMV), cujos financiamentos habitacionais passam principalmente pelo banco público.
Na MRV, a paralisação teve efeito negativo estimado em cerca de R$ 80 milhões no caixa da operação brasileira de baixa renda. A Cury recebeu R$ 1,3 bilhão em repasses de recebíveis no trimestre, uma redução de 13% ante o mesmo período do ano passado, segundo relatório do BTG Pactual.
Os repasses ocorrem após etapas como análise de crédito, conferência de documentos, vistoria de engenharia e assinatura do contrato. Até que esse processo seja concluído, a incorporadora pode ter vendido o imóvel sem receber os recursos do financiamento, o que pressiona o capital de giro usado para manter as obras e as operações.
A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) recebeu relatos de empresas associadas sobre demora maior em algumas etapas e acúmulo de processos. A entidade ainda não consolidou dados para calcular o impacto total da greve, afirmou Clausens Duarte, vice-presidente de Habitação de Interesse Social da Cbic.
Segundo Duarte, um processo sem pendências relevantes costuma levar até 20 dias entre o encaminhamento e a assinatura do contrato. Esse prazo varia de caso para caso e não representa uma média oficial da Caixa. “Os atrasos na conclusão dos financiamentos podem afetar tanto o fluxo de caixa das empresas, especialmente as menores, quanto as famílias que aguardam a finalização da compra do imóvel”, disse.
Antes do fim da paralisação, analistas da XP Investimentos já apontavam a execução dos financiamentos como um dos principais pontos de atenção para as incorporadoras de baixa renda. No segundo trimestre, antes da greve, foram repassadas 21,8 mil unidades, e o prazo mediano para recebimento era de 165,5 dias, conforme dados da XP. Os resultados dos próximos trimestres devem indicar se o tempo entre venda e entrada do dinheiro aumentou.
A exposição das empresas à Caixa acompanha o peso do MCMV no setor: o programa respondeu por 58% dos lançamentos e 51% das vendas no segundo trimestre, segundo analistas da XP. Além dos atrasos causados pela greve, um maior rigor do banco na aprovação de crédito dificultou a conversão de vendas brutas em vendas líquidas, ao reduzir a aprovação de parte dos compradores.
Os cancelamentos também cresceram. Na Cury, os distratos somaram R$ 358 milhões, alta de 59% em um ano; na Tenda, chegaram a R$ 312 milhões, avanço de 78%, segundo o BTG Pactual. Os números não podem ser atribuídos somente à paralisação, já que a análise mais restritiva de crédito também influenciou as operações.
Apesar das dificuldades, MRV, Cury e Tenda mantiveram o ritmo de vendas nas operações de baixa renda. A avaliação do BTG Pactual é que a greve provocou atrasos operacionais, não perdas definitivas de vendas ou receitas. A evolução dos repasses, dos prazos de recebimento e dos cancelamentos nos próximos balanços ajudará a separar os efeitos pontuais da paralisação dos desafios persistentes na concessão de crédito.
Para entender
- Minha Casa, Minha Vida
- Programa federal de habitação que facilita o acesso à moradia para famílias, com condições de financiamento vinculadas à renda. A Caixa é um dos principais agentes na operação dos financiamentos do programa.