Bombardeio mata dezenas de trabalhadores em mina de ouro no Sudão
Organizações sudanesas estimam 72 mortos e testemunhas relatam ao menos 65; o Egito diz que suas forças atuaram dentro do próprio território.
Resumo em 30 segundos
Um bombardeio atingiu uma mina artesanal de ouro no estado do Rio Nilo, no norte do Sudão, e deixou dezenas de mortos e mais de 120 feridos, segundo estimativas de organizações e testemunhas. O Egito afirmou que sua operação contra a mineração ilegal ocorreu em território egípcio. O Exército sudanês anunciou uma investigação, sem atribuir responsabilidade pelo ataque.
Dezenas de trabalhadores de uma mina artesanal de ouro morreram no sábado em um bombardeio no estado do Rio Nilo, no norte do Sudão, a cerca de 40 quilômetros da fronteira com o Egito. Organizações sudanesas de direitos humanos estimaram em 72 o número de mortos; testemunhas disseram que ao menos 65 pessoas morreram e outras 120 ou mais ficaram feridas. O Egito afirmou que suas forças atuaram dentro de seu próprio território, enquanto as Forças Armadas sudanesas anunciaram uma investigação sem apontar responsáveis.
A mina fica em uma região remota controlada pelo Exército sudanês e distante das principais frentes da guerra civil. O ataque chamou atenção por ocorrer em uma área até então em grande parte poupada dos combates e porque organizações de direitos humanos e veículos de imprensa sudaneses atribuíram a operação ao Egito. As acusações ainda não foram confirmadas de forma independente.
Em comunicado, o porta-voz militar egípcio afirmou que o país conduzia a terceira etapa de uma “grande campanha de combate à prospecção ilegal de ouro no Deserto Oriental”. Segundo ele, a operação foi precedida pelo lançamento de panfletos para alertar o que chamou de “elementos criminosos”. O comunicado sustentou, porém, que as forças egípcias agiram dentro das fronteiras do Egito, não em território sudanês.
O chefe militar sudanês, general Abdel-Fattah Burhan, anunciou na segunda-feira uma investigação sobre o que descreveu como um “incidente doloroso”. As Forças Armadas do Sudão, que têm o Egito como aliado, não atribuíram publicamente o bombardeio a nenhum país ou grupo.
Vídeos gravados depois do ataque mostram corpos e pessoas feridas junto a sacos de minério. Outros registros feitos por trabalhadores mostram aeronaves sobrevoando o local e explosões. Um vídeo exibe o que parece ser uma bomba NASR 400, de fabricação egípcia, ainda não detonada; a identificação foi feita por Trevor Ball, ex-técnico de desativação de explosivos do Exército dos Estados Unidos, após analisar as imagens. A presença de uma munição aparentemente egípcia, por si só, não confirma quem realizou o ataque.
As testemunhas descreveram uma sequência de bombardeios pela manhã. Bahar Eldin Hassan disse que aviões de guerra e helicópteros passaram várias vezes sobre a mina no início do sábado e que, a partir das 9h, aeronaves bombardearam o local ao menos três vezes durante cerca de uma hora. Ele estimou que aproximadamente 35 pessoas morreram na primeira investida.
Saif Eldin Adam, estudante universitário de 26 anos que trabalhava na mina havia três meses, relatou ter ajudado a retirar feridos e recuperar os mortos. Ele contou que se abrigou em um poço de mineração ao lado de um menino assustado e que, depois de sair, viu uma cena que o fez chorar. “Os mortos eram como irmãos para nós”, disse Adam, que descreveu a convivência diária entre os trabalhadores.
O episódio ocorre em meio à guerra civil sudanesa, na qual as Forças Armadas do Sudão enfrentam a força paramilitar Forças de Apoio Rápido. O conflito tem sido marcado por acusações de atrocidades, incluindo genocídio, uso de armas químicas, estupros em massa e fome. O ouro é uma fonte importante de recursos para os dois lados: o Exército já bombardeou minas controladas pelas Forças de Apoio Rápido no sul do país para tentar reduzir o financiamento do grupo.
A mineração artesanal, feita em áreas informais por trabalhadores que extraem o minério com poucos recursos, tornou-se um meio de sustento para muitos sudaneses durante a guerra, que abalou a economia do país. A atividade também envolve riscos físicos e denúncias de violações de direitos humanos. Mesmo depois do bombardeio, Hassan afirmou que espera voltar à mina, pois usa o dinheiro que ganha para sustentar oito irmãos e uma irmã.
O ataque também reacendeu preocupações após um episódio anterior na região. Em junho, mineiros acusaram forças egípcias de atacar com drones outra mina de ouro do lado sudanês da fronteira. Na ocasião, o Exército do Egito havia anunciado uma campanha contra redes criminosas e a mineração ilegal no sul do país, perto do Sudão. Relatos publicados depois apontaram mortes entre os trabalhadores sudaneses e a distribuição de panfletos com alertas sobre a permanência na área.
Para entender
- Forças de Apoio Rápido
- Força paramilitar sudanesa que combate as Forças Armadas do Sudão na guerra civil iniciada em 2023. O conflito envolve disputas pelo poder e pelo controle de recursos, entre eles o ouro.
- Mineração artesanal
- Extração de minerais em pequena escala, muitas vezes em áreas informais e com ferramentas e recursos limitados. No Sudão, a atividade é uma fonte de sustento para trabalhadores, mas pode envolver riscos físicos e violações de direitos.